Não se trata dos barracos desmoronando e matando criancinhas, não se trata dos políticos roubando, dos Zés inocentes cumprindo pena por outro alguém, de balas perdidas matando jovens... Não. Isso está presente não é de hoje. A injustiça só é sentida quando acontece aqui, diante de nossos olhos e nós não podemos fazer nada contra ela.
Mas é injusto, Deus, como é injusto.
Aquele menino que desde criança mostrou ser diferente, desde pequenininho mostrou ter um potencial fora do comum, uma inteligência rara, um dom diferente nessa vida. E diziam: Você não pode desperdiçar isso aqui. Vá e ganhe o mundo.
E o pequeno sonhava com o mundo. E no degrau de uma escada, dez anos atrás, eu me lembro: Controles de videogame estragados, teclados de computador... Ele era o piloto e eu sua assistente.
E no degrau de uma escada nos voamos o mundo todo, derrotando os inimigos e ganhando medalhas de honra ao mérito.
E no degrau de uma escada, surgiu nosso piloto. O menino com o maior sonho do mundo.
Chegou aos dezesseis anos ganhando o próprio dinheiro, lutando dia e noite. Morto de cansado, ele ficava. E ainda conseguia ser o filho mais carinhoso que seus pais já viram.
Mas ele, por mais que fosse o melhor em sua área por aqui, por mais que todos ligassem só para ele fazer os concertos em seus computadores, o menino tinha um sonho maior. Ele não queria ser programador, técnico de informática: ele queria os céus.
E ele tentou. Fez curso para piloto privado junto com bonachões de meia idade e foi o único entre eles a passar na prova. Ele tem uma carteira de piloto que carrega consigo.
Injustiça pode ser ele não ter uns 200 mil à mão para gastar nas aulas práticas. Injustiça pode ser ele conseguir voar apenas porque o filho do cara mais rico da cidade generosamente convida ele para dar umas voltas em seu avião. Deixa o menino ver lá do alto a cidade que ele teve de abandonar para estudar. Deixa o menino ver as ruas em que ele correu, as casas dos amigos de infância que ele deixou para se isolar no mar de concreto e buzinas.
Injustiça pode ser ele ter de deixar o amor de sua vida para se enfiar no meio dos livros.
Injustiça pode ser ele ter estudado a vida toda em uma escola de nível fraquíssimo em comparação ao tamanho de seu sonho. Injustiça pode ser ele ter chegado atrasado em uma turma de gênios e ter de se entupir de café, Coca-cola e energético para se manter acordado enquanto, sozinho, tentava aprender a matéria e recuperar o tempo perdido.
Injustiça pode ser ele ter sido um dos melhores para um aluno do primeiro ano, mas isso não ser o suficiente para fazê-lo passar.
Injustiça pode ser ele ter desenvolvido miopia de estudar a luz de uma luminária, horas a fio, madrugada a dentro.
Injustiça pode ser ele estudar anos para uma prova e justo no dia passar mal e não conseguir fazê-la direito.
Injustiça pode ser ele ter que fazer uma cirurgia arriscada nos olhos, mesmo sem ter a certeza que iria passar.
Injustiça pode ser ele tatear as paredes do apartamento, cego, na apreensão da chegada do resultado. Comendo abacate de almoço e janta por não conseguir ir no mercado fazer as compras.
Injustiça pode ser ele depositar toda fé, toda a esperança, todo o esforço, todas as preces, todas as noites de sua adolescência, tudo em apenas dois cruciais dias de uma das provas mais concorridas do país. Geralmente 20.000 candidatos por 20 vagas.
Míseros 20 lugares que são ocupados, muitas vezes, por meninos ricos que estudaram em escolas militares desde a pré-escola e que nem queriam isso de verdade. Lugares ocupados por meninos que não têm a maior sensação de felicidade que alguém pode sentir ao voar. Esses meninos que não pediam aviões de brinquedo quando eram criança, que não perduraram aviõezinhos e estrelas no quarto, que não viam filmes de heróis aviadores, que não amarravam uma toalha em volta do pescoço para lhe servir de capa, que não sentaram na escada com um videogame estragado para derrotar os inimigos do mundo todo em pró da segurança "nacional" da casa...
E o menino da minha história agora senta num banco de ônibus, com seu horizonte apagado por uma cirurgia frustrada e um sonho despedaçado.
Mas injustiça mesmo será se esses meninos que tomaram o lugar do meu piloto, ousarem por um segundo se quer, reclamar do lugar onde estão. Pois há um menino que daria a vida para estar lá.
